Erro e incerteza
Nenhuma medida é exata — nem a de um paquímetro de precisão, nem a de um telescópio espacial. O que distingue uma boa medida de uma má não é a ausência de erro, é saber quanto erro tem, e dizê-lo.
Duas famílias de erro
Chama-se erro, em metrologia, à diferença entre o valor medido e o valor verdadeiro de uma grandeza — um valor verdadeiro que, na prática, quase nunca se conhece exatamente, o que é parte do problema. É costume distinguir dois tipos de erro, porque se comportam de formas muito diferentes e pedem soluções diferentes.
Erro sistemático é o que se repete sempre na mesma direção: uma balança mal calibrada que pesa sempre 2 g a mais, um paquímetro cujos mordentes não fecham perfeitamente em zero. Repetir a medida não o revela — todas as repetições erram da mesma forma. Só se deteta comparando com um padrão de referência, e só se corrige calibrando ou substituindo o instrumento.
Erro aleatório é o que varia de medida para medida, para cima e para baixo, por razões que não se controlam por completo: uma vibração, uma leitura ligeiramente diferente do mesmo traço, uma variação de temperatura. Ao contrário do erro sistemático, o erro aleatório reduz-se — não desaparece — repetindo a medida várias vezes e calculando uma média.
Exatidão e precisão não são sinónimos
No uso corrente, "exato" e "preciso" quase se confundem. Em metrologia não. Exatidão é estar perto do valor verdadeiro. Precisão é a concordância entre medidas repetidas da mesma grandeza, estejam elas perto do valor verdadeiro ou não. Um instrumento pode ser muito preciso e sistematicamente errado — dar sempre o mesmo valor, de forma muito consistente, mas um valor afastado do real, por estar mal calibrado. E pode ser exato em média e pouco preciso — as medidas individuais dispersam-se muito, mas centram-se, em média, no valor certo.
Uma imagem simples
Pense num alvo de tiro. Exatidão é acertar perto do centro. Precisão é os tiros caírem perto uns dos outros, no mesmo sítio — perto do centro ou não. Um bom instrumento de medição precisa das duas coisas: tiros agrupados (precisão), e agrupados no centro (exatidão, que normalmente se garante por calibração).
Como se exprime uma incerteza
Dizer "medi 23,5 mm" é uma frase incompleta em ciência, porque não diz quanto se pode confiar nesse último algarismo. A forma correta é exprimir a medida com a sua incerteza: um intervalo à volta do valor medido dentro do qual se espera, com razoável confiança, que o valor verdadeiro esteja. Escreve-se, por exemplo, 23,50 ± 0,05 mm — a medida foi 23,50 mm, e a incerteza associada é de 0,05 mm para mais ou para menos.
Para um instrumento com escala de nónio, uma regra prática comum é tomar como incerteza metade da menor divisão que o instrumento consegue ler — para o paquímetro interativo deste arquivo, que lê a 0,1 mm, isso dá uma incerteza de leitura de ±0,05 mm. Note-se: isto é a incerteza de leitura, associada à resolução do instrumento. Se o instrumento estiver descalibrado, há ainda um erro sistemático a somar, que a resolução, sozinha, nunca revela.
Algarismos significativos
Os algarismos significativos de um número são os algarismos que carregam informação real sobre a precisão de uma medida — e a forma como se escreve um resultado deve refletir, sem exagero nem defeito, o que se sabe efetivamente sobre ele.
- Todos os algarismos diferentes de zero são significativos: 4,7 tem dois algarismos significativos.
- Zeros entre algarismos diferentes de zero são significativos: 20,5 tem três.
- Zeros à esquerda do primeiro algarismo diferente de zero não são significativos — servem só para posicionar a vírgula: 0,0047 tem dois algarismos significativos, não quatro.
- Zeros à direita, depois da vírgula, são significativos: 4,70 tem três — o zero final diz que a medida se conhece até às centésimas, não é um zero decorativo.
As regras nas operações
Multiplicação e divisão: o resultado não pode ter mais algarismos significativos do que o fator que tiver menos. 4,7 × 2,10 = 9,87, mas como 4,7 só tem dois algarismos significativos, o resultado deve arredondar-se a dois: 9,9.
Soma e subtração: o que conta não é o número de algarismos significativos, é o número de casas decimais — o resultado não pode ter mais casas decimais do que a parcela que tiver menos. 12,4 + 3,68 = 16,08, mas como 12,4 só tem uma casa decimal, o resultado arredonda-se a 16,1.
Porque é que isto importa fora do laboratório
Escrever mais algarismos do que os que uma medida sustenta não é rigor, é a aparência de rigor — e a aparência de rigor é, em ciência e fora dela, uma forma comum de enganar sem mentir tecnicamente. Um resultado com algarismos a mais sugere uma confiança que a própria medida não tem. Um bom hábito de leitura de instrumentos — saber onde a precisão real de uma medida termina — é, no fundo, um hábito de honestidade sobre o que se sabe e o que não se sabe.
Para praticar a leitura de uma escala até à resolução do instrumento, veja o paquímetro interativo, que tem um modo de exercício com margem de tolerância.